Álvaro Cunhal e Manuel Tiago

<em>Duas ou três notas<br>sobre ficção e testemunho</em>

Manuel Gusmão
A obra literária de Manuel Tiago, pseudónimo que Álvaro Cunhal assumiu como seu em 1994 na sessão em que apresentou o seu terceiro livro de ficção, A estrela de seis pontas, abre com dois títulos que nomeiam duas narrativas profundamente diferentes.
Um relativamente longo romance coral, ou de herói colectivo em que se figura, através da montagem paralela, um movimento multipolar de luta social e política, os seus êxitos relativos, a repressão que sobre os seus activistas se abate e a reorganização tenaz do colectivo actuante e atingido, que é a vanguarda desse movimento – o Partido Comunista Português. A outra narrativa pode ser tomada como um conto que se alonga, mas sem demoras redundantes. É agora música de câmara, um dueto que é um duelo e termina em diálogo; dois protagonistas: um vai passar a fronteira, o outro vai ajudá-lo a passá-la. A passagem é clandestina e envolve portanto perigo. Na iminência do perigo o homem mais velho, o passador, e o jovem, que é discretamente um militante político medem-se, avaliam-se, desafiam-se e aprendem um com o outro, aprendem aliás a respeitar-se na sua diferença.
A obra posterior oscilará entre estes pólos ou géneros literários e integrará a representação de outros lugares e experiências. Depois de A Estrela de Seis Pontas surgirão A Casa de Eulália, Fronteiras, Um Risco na Areia e Sala 3 e outros contos. A obra no seu conjunto reúne, entre vários outros, dois desejos ou mesmo duas concepções que de formas historicamente diversas se configuram na experiência artística e estética: o desejo de ficção e o desejo de dar testemunho. A reunião desses desejos, que não são mutuamente exclusivos, é talvez uma das maneiras de compreender porque é que as obras de arte e em geral as artes podem desempenhar uma função de abertura ou de alargamento pela imaginação das formas, das figuras ou das versões do mundo em que vivemos. Esta dilatação ou acrescento dos mundos que formam aquilo a que chamamos o mundo real pode servir intenções ou desempenhar funções político-ideológicas diversas ou produzir efeitos contraditórios e conflituais; a arte pode ser uma forma de protesto, de denúncia ou de resistência, sobretudo em tempos sufocantemente opressivos. Mas, tendencialmente e na longa duração da história, a arte é um espaço de respiração e de jogo,.
A primeira e a 9.ª edição (em 2004) de Até amanhã, camaradas abrem com uma curta «Nota sobre o Autor» de três parágrafos. Essa nota, que todos nós tendemos a imaginar que foi escrita pelo autor Alvaro Cunhal, diz que se desconhece quem é o autor. O único exemplar encontrado não tem assinatura. Só numa pequena folha apensa e agrafada pode ler-se, em rabisco apressado, «o nome Manuel Tiago, pseudónimo, de certeza.» É isto uma mentira? – Não, sobretudo se tomarmos a palavra «mentira» no sentido moral; pode ser «mentira», mas apenas se usarmos a palavra «mentira» num «sentido extra-moral»; assim como é justamente um procedimento ficcional muito frequente em romances. Para além disto, a nota diz duas coisas que não só são verdadeiras como são fundamentais: uma é a frase que sublinhei na citação e na qual nos é dito que Manuel Tiago é um pseudónimo; e a outra é a frase final da nota: «O autor fica assim merecendo o título de “homem sem nome”, tal como as personagens do seu romance». Ora se um pseudónimo serve para ocultar o nome civil de um autor, pode dizer-se deste último que não tem de facto nome. Mas por outro lado, em Até amanhã, Camaradas há imensas personagens com nome próprio; então como é que se pode dizer que autor e personagens não têm nome? Estamos perante um jogo da ficção, no interior da qual o autor empíricamente real, disfarçado de editor ou organizador da edição, para além do mais, propõe uma maneira de entender e caracterizar o romance que vamos ler. Os nomes próprios que lá estão indicam personagens que se movem com outras de que não nos é dito o nome. Esse anonimato diz aqui uma parte da dialéctica entre indivíduo e colectivo. Os nomes que lá figuram estão pelos nomes todos dos que lá estão também e, contudo, seria impossível dizê-los. Mas o facto de uma parte ter nomes significa que, para além do anonimato imposto, como para além do anonimato que diz a pertença e o sonho da igualdade, cada membro do colectivo é um indivíduo, um ser individuado, ou digamos mais, um ser cuja individuação é ou está em processo.
Reparem, estamos em plena ficção – jogo, fingimento e sonho – e, entretanto, a ficção é um dos modos de procurarmos e de fazermos sentido, é um modo de testemunhar, de dar testemunho de tal forma que aquele que «fala» não é só de si ou por si que fala. Em que medida não é arrogância pretender falar em nome de outros ou dar testemunho de uma comunidade? Pela partilha até ao fim de uma condição comum, pela dedicação de uma vida singular ao trabalho do comum, trabalho feito por indivíduos singulares e unidos por uma amizade que é uma construção histórica e social, política, ideológica e cultural. Ora há no livro uma estranha personagem de quem pouco sabemos e que é sempre referida por outros, que lhe chamam «o Amigo». Não é um nome próprio, não é um pseudónimo, mas também não é uma figura indiferenciada do anonimato, é um epíteto que designa «alguém», um epíteto que diz a qualidade de que é feita a passagem ou a transformação do anonimato em colectivo.
E isto traz-nos a uma outra ou a várias perguntas. Compreendem-se as razões porque Até Amanhã, Camaradas e Cinco Dias e Cinco Noites foram publicados, só após a revolução de Abril e sob pseudónimo; mas porque é que Álvaro Cunhal continuando a escrever ficção resolveu manter como assinatura o nome «Manuel Tiago», mesmo depois de o ter assumido como seu pseudónimo literário?
A pergunta de facto desdobra-se em várias. Porquê este desejo de ficção que se traduz em mais romances e livros de contos?
Na «Nota do Autor», que abre o seu livro Fronteiras de 1998, a personagem de autor, Manuel Tiago, dirá «ficção é imaginação, fantasia e sonho». Nestes termos, o desejo de ficção representa o apego a uma arte que prolonga um antiquíssimo hábito das comunidades humanas: a arte de contar histórias, uma arte que é também uma techné, como se dizia na Grécia antiga, e pela qual essas comunidades estruturam e partilham através dos tempos, as suas experiências, os seus sonhos e pesadelos, desejos e fantasmas, crenças e valores. Ao fazer isto a ficção, como as artes em geral, configura o humano como algo em aberto, em processo e não como algo que estaria desde sempre e para sempre encerrado numa natureza imóvel. Na nota que acabei de citar, «Manuel Tiago» vai um pouco mais longe ou propõe-nos uma dificuldade maior: «Nenhuma das histórias foi assim tal qual. Mas tudo o que se conta em cada conto aconteceu. Tudo nestes contos é ficção e tudo neles é realidade». Há cursos universitários para lidar com problemas deste tipo. Não temos aqui nem tempo, nem espaço para isso.
Mas tentemos um pouco. A frase final só mantém a sua força, que aliás lhe vem de parecer uma aporia (a afirmação em simultâneo de duas ideias entre as quais não há passagem) ou um paradoxo, se compreendermos que uma ficção não é nunca tal qual uma experiência vivida. Se o fosse, onde estariam a imaginação e as outras qualidades a ela associadas? Se o fosse, todos nós seríamos ficcionistas no sentido estrito de produtores de ficções literárias.
Chegados aqui, já podemos ensaiar uma resposta para a pergunta sobre as razões que levaram Álvaro Cunhal a manter o pseudónimo, quando ele já não era necessário. Por um lado, o pseudónimo faz parte da ficção e marca a sua diferença em relação a outras formas de discurso e modalidades da comunicação; ou aquilo que na tradição marxista tem sido designado como a autonomia relativa da arte em relação às representações ideológicas de classe, ou às funções de aculturação, de propaganda e de hegemonia. Neste sentido, o facto de Manuel Tiago continuar a assinar ficções é – por estranho que isso possa parecer – uma espécie de consagração ou de legitimação da ficção. Até porque há uma espécie de verdade da ficção, que não é a verdade da ciência ou da filosofia, mas pode acordar-se ou afinar-se (em sentido musical) com elas. Há vários anos que penso que uma das razões para o pseudónimo foi a de impedir que o nome do dirigente político funcionasse como orientação ou caução para o aparecimento de «discípulos».
Finalmente, a manutenção do pseudónimo é como que um sinal que discretamente nos mostra ou nos diz que um indivíduo humano não é apenas uma unidade monológica, não é redutível a uma qualidade ou uma actividade. Então é como se Manuel Tiago nos dissesse: «olha que Álvaro Cunhal não é só o Álvaro Cunhal que conheces como militante e dirigente do PCP, para além de vários pseudónimos, ele é também um escritor de ficções chamado Manuel Tiago».


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